Real Time Web Analytics

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Zica Wicca Kuíka


O nome é complicado, mas ela é bem simples. Na verdade, a estória é simples. Ela chegou toda cheia de cortes, bernes, magra com os ossos aparecendo. Eu chegava perto e ela fazia xixi, com o rabo no meio das pernas, morrendo de medo. Eu chorava, de dó.

Ela tinha medo de humanos... e eu fiquei com vergonha. Desculpa, cachorrinha, porque tem gente bem ruim por ai..e ai eu não agüentei. Peguei a cadelinha magrela, e pronto.
Fim da estória.

Mas não é bem assim, né??
Depois dos bernes tirados, do banho tomado, da injeção contra doenças, da cirurgia pra tirar uma bola enorme de pus..cirurgia esta feita na minha lavanderia mesmo...

Ai, pensei, vou chamar o Fernando. O dr. Fernando, vet aqui da região. e lá veio ele, com seu fusquinha montanha acima, com tudo dentro do carro. Anestesia, esparadrapos, seringas, bisturi, tudo. Eu ajudei. Foi lá na mesa mesmo. Ela nem percebeu. Eu que achei o máximo. Deu tudo certo..êta roça!!

E depois da cirurgia veio os sapatos comidos..tantos sapatos, perdi até a conta. Roupas rasgadas...até meu vizinho subiu a montanha a cavalo, bravo que doía ver o homem ali da cela dele...

"-Tua cadela matou uma das minhas vacas".
"-Não pode ser..como foi isso??".
"-Ela mordeu as patas da vaca que correu e rolou a montanha, morrendo lá embaixo. Foi por causa da cadela, que morde as patas das minhas vacas"..
"-Moço, não vai mais acontecer".

E fazer cumprir a palavra não é fácil.
Ela mordia mesmo. Eu gritava, não adiantava.
Tive que dar a cadela...e lá se foi a Zica, montada na caçamba do carro, tremendo novamente.

Dei a Zica pra minha vizinha, que tem muitos cães. Dei porque tinha a promessa de devolver caso não desse certo... e é claro que não deu. A Vizinha ligou, brava:
"- Não quero mais tua cadela. Ela já matou uma das minhas galinhas. Vem já buscar esta cachorra".. e lá fui eu, buscar a Zica, mais feliz do que outra coisa.

Sou "mãe" mas não sou cega..tenho uma cadela que só da problemas..mas que eu amo de paixão.
Final do ano passado me deu 9 cachorrinhos. 2 morreram de verme, um morreu afogado numa chuva forte que deus mandou logo na noite que eles nasceram.
O restante eu dei. Fui na praça da cidade vizinha, com eles no colo. E fui de pessoa em pessoa, sentada nos bancos, nos balcões dos bares, nos portões de suas casas, entrei até no supermercado da dona Maria, minha amiga.

Dei todos.

A última foi a Totóca, depois adotada pela turma do acampamento. Era a mais doentinha... ficou boa, mas parte do pescoço se foi com os vermes que comeram ela, dentro do ninho na mata..tiramos com pinça, todos... e passado a fase..ficou boa. 
Deu dó quando eu dei. Eu queria ela para mim... mas tudo bem.


Agora to com a Zica por ai. Depois que voltou da vizinha me obedece mais. Eu grito o nome dela e ela vem correndo.
Acho que viu que humanos são "bichos" estranhos. E eu vou aprendendo a conviver com a Zica Kuíka...

Alguém quer uma cadela?? Nãoo douuuuuu!! :D



domingo, 1 de agosto de 2010

Wicca Cuíca

Eu nunca tinha tido cachorro. Muito menos me interessei em estudar as raças antes de escolher. Fui num shopping de bairro e lá estava a feirinha de animais. Num "chiqueirinho" eu vi umas bolinhas de pelos brancos, pulando uns com os outros, dando gritinhos de alegria "infantil". Rusky Canadense, foi a resposta sobre que raça era. Preço de mil reais, com pedigree e tudo. Barato, eu pensei, ainda ganha a vacina aqui no shopping mesmo.

Ego nas alturas, porque ao sair do shopping, a roda de gente querendo saber da bola branca era grande e crescia se eu não saísse andando.

Filhotes comem tudo. Tudo bem. Wicca comeu tudo. Comeu meu manacá do vaso. Comeu minhas roseiras e acabou com meu jardim, que parecia antes dela um éden pequenino e suave no meio do concreto da casa, na vila mariana. Comeu sapatos e corria atrás dos gatos. Foi um inferno.

Na noite de inauguração de uma grande loja de livros na cidade de São Paulo, eu enfrentei o engarrafamento com ela no colo, sofrendo por causa da noite quente. Liguei o ar condicionado e deixei a Wicca no meu colo, tomando vento frio no rosto. Uma menina que pedia dinheiro numa esquina parou na janela, nariz no vidro. Ela ria. Abri a janela, e ela disse com grandes olhos arregalados: que linda, enfiando as mãos para acariciar o pelo macio e alto da Wicca, que adorou o carinho inesperado.

Na foto Wicca segura uma bola verde, que assumia vezes de filhote, nos momentos em que Wicca sofria de gravidez psicológica. Ela agarrava a bola e ninguém chegava perto. Só eu.

No calor, gelo no quintal.

Pra passear, só um homem forte. Eu não tinha forças para segurá-la.

Paguei um ano e meio de handler. Foi ótimo. O Paulo é um moço maravilhoso, e as aulas fizeram bem. Não nego. Mas não ajudaram muito com ela. Selvagem, auto suficiente, mandona e ciumenta.

Quando viemos pro mato, ela foi dada para um casal.

Um dia, tomando café em São Paulo numa padaria de esquina, passou o novo dono com um envelope nas mãos. Nos viu de relance e entrou na padaria atrás da gente. Ai, pensei, ele vai querer devolver a Wicca, que eu chamava carinhosamente de Wicca Cuíca.

Mas foi o contrário. Ele abriu o envelope e me deu as fotos dela, linda, penteada, com um laço enorme cor-de-rosa. Os olhos do homem se encheram de lágrimas e ele nos disse: "-Não foi voce que me deu a Wicca, foi Deus".

Sabe aquilo que te pega sem esperar? Até hj eu agradeço o milagre da Wicca.
Cães eu tenho e vou falar deles mais na frente.
Como a Wicca nunca mais.
Ruskies?? jamais é muito tempo, mas se depender de mim, não mais.
Wicca foi unica.

Eutanásia R$ 80,00



Eu me sinto privilegiada quando penso na convivência com meus animais.
Tudo bem..Diversidade... tem gente que não gosta de bicho, que prefere bichos longe, na natureza..tem gente que não gosta de limpar "sujeira", que não quer ter trabalho.
Tem gente alérgica, e outros tantos motivos pra não se ter bichos por perto.

Eu vivi muitos anos da minha vida sem bichos.
Quando peguei meus dois gatos, eu sabia que, depois daquele dia, eu jamais ficaria sem animais. Não posso mais me imaginar vivendo sem eles.

Minha gatinha Pretagil foi uma estrelinha preta que passou na minha vida..linda, falante, amorosa e linda, gente... Muito linda. Era de roça mesmo. Caçava tudo... comia todos.

Quando saiu pelo mato aos 8 meses eu bem sabia: aii meu deus, pensei, bobeei... Pretagil vai voltar barriguda..e dito e feito..voltou com 4 bebes na barriga, que quando nasceram, ela fez questão de me levar no dia seguinte ao nascimento, para a caixinha de cordas lá em cima na garagem... e lá estavam eles. Nasceram no final do ano.

Quando ela tirou eles de lá fez questão de apresentar um a um para os cães da casa, Melão e Neco. Veio como nos filmes, com um bebe na boca, colocando no chão e rosnando pros amigos caninos, indicando que aquele bebe era dela e que não podia morder. Eles entenderam. Aliás, verdade seja dita, eles tinham o maior respeito pela Preta. Ela é que dava as ordens no barraco.

Um dia subiu a montanha com um preá enorme na boca. Levou ate a varanda, onde as "crianças" estavam. Ela levou o bichinho vivo, e ensinou a matar. E os 4 comeram a preá inteirinha, deixando o intestino.. O resto foi tudo.

Eu digo que sou privilegiada de ver tudo isso.

Quando ela ficou doente, eu sabia que era o fim da Preta. Doeu demais deixar ela lá, pra matar. Nunca mais vou me esquecer disso.
Paguei R$ 80,00 (oitenta reais) pra ela morrer.
Obrigada Preta.
Amei ter voce.
Te amo, viu?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tufão na Roça


"Vivo a enebriante liberdade de escrever sobre o que vivo"..esta frase permeia meu universo interior.. A lí em um blog, perdão por nao lembrar mais onde foi...

Sou uma privilegiada. Num universo de analfabetos, semi-analfabetos, cegos que não veem o mundo ao redor,eu me sinto rainha em terra de cegos.
Sentada de costas para a porta de vidro, eu só ouvi o barulho. Olhei pela porta e vi a chuva chegar, mas levei alguns segundos para descobrir de onde vinha o barulho..um barulho que eu nunca ouvi antes..até agora, escrevendo estas linhas, eu me arrepio com a lembrança daquele som. Talvez seja uma das coisas que eu jamais esquecerei.

Deu tempo de pegar o pote da ração dos gatos, fechar a porta de vidro e sair pela casa, fechando o resto.Mas foi só o que eu consegui fazer.
O vento veio..e com ele a destruição como nunca havia visto.
As cadeiras e redes da varanda se foram pelo ar, junto com arvores e pedaços de galhos enormes..tudo voava ao som daquele barulho louco..e a chuva..pouca agua, mas violenta..louca..a janela quebrou e junto com os vidros, levou os apetrechos da lareira,,molhou quadros, sofá, instrumentos musicais.

E aquele som, maravilhoso, louco, me assustava e encantava...não somos nada..nada..tentei abrir a porta, sair de casa, e não consegui abri-la..achei que havia alguém fazendo força pra ela ficar fechada..era a força do vento, que me impediu de abri-la. Não deu. Não consegui fazer mais nada..parei no meio da sala, achando que restaria pouco pra limpar depois do tufão ter passado.
Deve ter durando poucos minutos.

Mas foram intensos. As arvores estão lá..fiquei pensando nos passaros que, há pouco, eu havia visto voarem com pedras nas patinhas para fazer o ninho aqui na minha porta de entrada..tem um nicho lá, e eles todo ano, nesta época, vem aqui para nidificar...
Agora chove. Coloquei uma lona no lugar da janela quebrada, e estou catando os destroços de arvores e outros itens que voaram pela sala afora.
Minha gata miava grosso..eu tb miaria grosso se pudesse soltar algum som pela boca aberta de medo.
Vivo a inebriante aventura de escrever sobre o que vivo.
Sou uma privilegiada, num mundo de poluição e cinza...eu sobrevivi a um tufão na roça...
o resto..o resto é conversa para depois, no fogão a lenha, já com a casa seca.

e viva a roça, minha gente...

O Planeta Talira


Naqueles dias do acontecimento, eu trabalhava com computadores Era uma empresa pequena, quase caseira, que desenvolvia os primeiros pcs, com um sistema operacional que permitia rede, era um avanço.
Eu trabalhava com o Software da máquina e dava os cursos de operação. Requisitei um ajudante.
Foi ai que o Ronaldo entrou na estória. Era programador e tínhamos muito trabalho. Ficávamos a maior parte de nossas vidas naquele cpd gelado. E ele foi, aos poucos se abrindo. Mostrou-me dezenas de mapas inter-galáticos, feitos por ele, marcando trajetórias de viagens. Livros manuscritos com milhares de páginas, contando a estória de um planeta chamada Talira, de povo pacífico. Foram atacados por planeta belicoso. Estória manjada, mas os descritivos das famílias, dos costumes, das escritas, dos números, alfabeto, brasões, arvores genealógicas, tudo absolutamente detalhado. Uma outra dimensão. Ele trazia cada vez mais coisas ao cpd, amontoando uma riqueza no canto frio, me dando o que pensar. Era tudo muito rico...

E um dia, eu sonhei. Sonhei que me colocavam na frente de uma mesa em forma de lua crescente num rico salão de mármore. Na mesa sentavam 13 homens. Um bem no meio, que lembrava o Galdalf, e seis de cada lado dele, todos anciãos. E o do meio me chamou de um nome estranho (que eu não me lembro) e disse "Fulana...nós somos do 13º Conselho de Anciãos de Talira" e você esta aqui ..." e acordei.

Acordei, escrevi o nome que me chamavam no sonho num papel, junto com o nome do Conselho,
tomei banho e saí correndo pro trabalho. Estava louca pra chegar e contar pro Ronaldo,
embora soubesse que ele só chegava, sempre, depois das 10:00 da manhã...Por isso assustei
quando vi o Ronaldo, de costas pra porta de vidro, já debruçado numa listagem de programa em cobol, procurando por uma vírgula fora do lugar.

E o diálogo a seguir conta bem próximo da realidade o que aconteceu:
"-Ronaldo, tenho uma coisa pra te contar, vc nem vai acreditar!
-Eu sei- disse ele.
-Como assim "eu sei"...pois acaba de acontecer...
-Mas eu já sei."

Virou-se para mim e com os olhos cheios de água ele foi se aproximando de mim e dizendo:
"-Voce sonhou com o 13º Conselho de Anciãos de Talira".
E quando chegou bem perto de mim, ele disse olhando nos meus olhos:
"-Fulana (o mesmo nome do sonho), voce esta se lembrando".

E ai, eu fiquei muitoooooo assustada. Meu coração veio parar na boca, não havia área do meu corpo que não tremesse, e no meio do medo, eu só consegui rasgar o papel onde havia anotado o meu nome ( o que hj me arrependo) e lembro de ter pedido a ele que nunca mais tocasse no assunto.
Nunca mais ouvi falar sobre Talira, sua saga, sua viagem ate o planeta Terra, suas naves mães estacionadas em Io, Saturno. e nossas naves de pouso ainda escondidas debaixo das areias escaldantes do Egito. A riqueza de material foi aos poucos desaparecendo do cpd, até que não tivesse mais nada.

Semanas depois, o Ronaldo desapareceu e nunca mais ouvi falar do Ronaldo.

Bem, é quase nunca mais...Mas uma pena que meu medo me paralisou.
Perdi uma grande oportunidade na minha vida de viajar em outra dimensão.

Aprendi que o medo paralisa a alma...
Como eu li no livro "Duna", "..o medo é a pequena morte da mente..."

E minha mente morreu um pouco naquele dia.
Pena pra mim...

Pintura da alma


Eu trabalhava com computadores, depois mudei de vida. Aprendi pintura e fui dar aulas..por mais de 18 anos.. e foi maravilhoso. Pelas centenas de quadros que passaram pelo meu atelier, eu conheci dezenas de pessoas por dentro, na intimidade desconhecida ate de quem pinta. Casos tão interessantes de transformações radicais, depois que a janela da alma mostrou alguma
informação da casa interior.

Eu tinha uma aluna que só pintava casario. Acabava ano, entrava ano, e la estava ela pintando paredes e janelas retas, telhados com telhas em detalhes, tudo certinho, tudo simétrico, nada fora do lugar. De vez em quando, arriscava uma natureza morta, pelos mesmos motivos: tudo certo, tudo no lugar.

E ai eu disse: "-Próximo quadro vai ser abstrato". Não ouve um momento de silencio, não. Foi eu terminar a frase, ela começou a dizer em voz alta que não dava, que eu estava sendo louca de querer isso, que ela ia passar muito mal, de pintar algo sem contornos precisos....e eu disse: próximo quadro vai ser abstrato. Voce escolhe o motivo.

Ai eu ajudei.
Fiquei com dó da expressão assustada da mulher. Um fundo de mar, arrisquei. Nem tão abstrato, assim, mas mais impalpável, mais mutável...eu queria que ela saisse do quadrado. Ela veio na proxima aula nervosa, cabeça doía, não sabia porque estava lá.

Usamos massa corrida, objetos diversos pra colar na tela, lúdico, macio, gostoso, diverso da dor imaginada pela falta de contornos. As aulas foram passando...Ela foi me contando que desde que
começou a pintar aquele quadro, ela estava mudando.

Percebia o corte novo no cabelo, a cor mais pro ruivo...ela passou a responder as críticas mais prontamente..estava mais segura. No final, seu quadro estava lindo. Um belo fundo de mar, escuro no fundo, mas com a promessa de luz vinda de raios por cima..e nadando no mar lindos peixes coloridos. E ela também estava radiante. Eu sabia que lá dentro, o pincel havia dito ao espírito que poderia ousar sem medo.

Eu ficava maravilhada. Nunca mais pintou casarios. Agora estava voando em outras expressões.
Fazer coisas novas, por mais pequenas que sejam , podem transformar a alma..

Que coisas novas você fez hj?? E eu??

O ano em que Jimmy morreu


Naquele ano fui passar as ferias na casa da minha tia no Rio de Janeiro.
Eu não gostava muito porque lá não tinha nada pra fazer. Minha prima tem 10 anos a mais do que eu, e eu detestava ficar naquele apto sem fazer nada. Eu tinha 6 anos na época e praia só com "as velhas"...acabei ficando doente.
Uma gripe forte, daquelas que derrubam mesmo. fui pro quarto da prima, deitar nas almofadas, enquanto as "velhas" ficavam na sala, conversando.
Tava quase dormindo quando ouvi a porta do quarto abrir e minha prima entrou com uns amigos. Sentaram-se num canto da sala, em roda. Ela veio ver se eu estava realmente dormindo...eu finji que sim...atriz de qualidade inegável, enganei a todos.
Ela foi sentar-se na roda dizendo que eu estava adormecida profundamente.
Assim camuflada, pude abrir meus olhos bem lentamente ate um ponto em que conseguia enchergar sem dar bandeira, sabe???
E percebi que rodava algo, que cheirava forte, entre eles...Fumavam maconha, rindo e chorando juntos. Falavam do sentido da vida, da certeza da morte, de aproveitar as oportunidades, do medo de enfrentar as conseqüências, da juventude e velhice...e fumaram muito, e riram e choraram muito. E um nome era ouvido de vez em quando: Jim Morrisom.

Na época eu não entendia nada...
Depois eu cresci, e soube que naquele dia morria Jim Morrisom.
Conheci The Doors alguns anos mais tarde, e juntei dois mais dois.
Hoje sou fã de carteirinha deste lizard que era fã de tolkien e viagens psicodélicas.
Engraçado que ainda ouço os mesmos questionamentos...ainda hoje, choro e dou risada com amigos falando sobre os mesmos assuntos que circularam junto com a maconha naquele círculo de amigos, há tanto tempo atrás...
Nada mudou. Bem, muito mudou nestes anos, mas a essencia do humano continua lá, um mistério...e essa busca pelo desconhecido interior move muitos.
No fim, subir minha montanha tem muito a ver com isso..me conhecer, saber meus medos, limites, fraquezas e forças.

Dizer pra Vida: common baby and let my fire!!!

Floresta Encantada

Minha terra era pasto. Já foi Floresta da Mata Atlântica, mas caiu pra fazer carvão. Porque as pessoas precisam comer, precisam comprar roupas e remédios, precisam se alimentar. Mas, como disse Bertrand Russell, "Precisamos cuidar do mundo que não veremos".
E aqui na Santa Roça, nada disso acontece. A árvore não tem valor. Não se pensa no mundo futuro, por que??Porque simplesmente ninguém sabe que a árvore faz parte do futuro. Que sem elas, não tem futuro.
Meu vizinho jogou mata-mato na beira do rio, no lado da margem dele. Fui lá falar com ele. Isso ja faz dois anos. Ele continua a fazer isso, e não fala mais comigo. Tudo bem. Eu não teria assunto a tratar com este homem.
Mas acontece que eu preciso falar. Primeiro porque dói na minha alma, e depois porque eu sofro as conseqüências deste desmatamento da margem esquerda do Rio do Peixe. Este lindo Rio tem cheias constantes na época das chuvas, época que já está acabando. Estas cheias invadem minhas terras, e todas as ribeirinhas.
Até ai, nestes quatro anos de Shire, sempre foi um show da Natureza. Jim Morrison que me perdoe, mas um tesão de show...só que este ano, o açoreamento foi demais de ruim. Encheu minha terra de areia, levou boa parte do terreno do vizinho, espalhando grande quantidade de terra no fundo do rio, tornando esta passagem estreita, fazendo as águas subirem mais.
Ou seja, mais áreas sendo devastadas pela enorme quantidade de água que sobe.
E o que tem tudo isso com Floresta Encantada? Tudo, eu digo. Final do ano passado, reflorestamos as terras com a ajuda de uma ONG. 3.400 mudas plantadas, que serão cuidadas por dois anos. Com estas enchentes, estas mudas estão cheias de areia e barro, e outras tantas foram arrastadas pelas recentes cheias...
Minha Floresta Encantada...sendo arrastada pela força do Rio do Peixe...bem, parte dela!
Mas eu sei semear. Colocar uma semente num montinho de terra e água. Paciência. Mais água. Mais paciência. Broto.
Mais água e paciência...e quando menos se espera a muda cresceu e esta pronta pro replantio. E ai, mais paciência, por que é assim que se encantam florestas...

Festa Literária


Começou com a estrada...o povo aqui ate estranhou..há tantos anos ninguém ligava pra esta estrada..tinha buraco atrás de buraco;uns remendados outros escancarados....E acabava ano entrava ano e nada de arrumar.

De repente, caminhão a não poder mais..com pedronas, pedrinhas, asfalto novo..cheiro de pixe no ar..os cães curiosos.. apareciam pra ver que era aquilo..e tinha gente tb..nunca tinham visto "fazer asfalto".

Ficou pronto na sexta-feira. No sábado, o helicóptero do Serra baixou na roça. Hoje fui no supermercado da dona Maria e ela disse: "-Os homé olharam nóis la de cima.tinha que vir aqui no chão, pra ver como é bão...". E riu. Foi ela que perdeu tudo no supermercado quando o rio encheu e deixou a praça do coreto debaixo dágua..Não apareceu ninguem pra ajudar..só nós mesmo.. vizinhos!

Mas neste sábado a praça do coreto tava em roupa de gala..tinha gente de fora...Loyola, Serra, gente "de berço", com carrão todo preto, último modelo, estacionado na praça, que nunca viu tanta gente. Feira Cultural, Literária, com autores do Vale, de Sampa, do mundo.

Tinha câmeras da Cultura, da Globo..tinha gente de montão..que eu nunca vi. Comeram bolinho caipira, famoso aqui da região, de farinha de milho e carne moida com gengibre..tomaram quentão e vinho quente.

Mas sabem o que tava faltando? O povo da roça, gente. Não foi ninguém. Fiquei horas por lá, procurando Dona Maria, "seu" Isaías, "Seu" João do Açougue, Dona Olivia, a Queila com a criançada...nem o Cowboy do Xandinho tava lá com seus cavalos pra alugar. Não sei o que deu neste povo da cidade, que vem comemorar livro na roça e esquece do "povo da roça".

Povo que não sabe escrever, que tem vergonha de ser quem se é...seja homem ou mulher, criança ou velho, é obra de arte, marcado na pele enrugada prematuramente pelo sol e pela enxada puxada desde cedo.
Gente que não foi comemorar coisa de "gente de bem". Fui embora.
Fui pra casa do Bambuíra e da Lelê que tocaram viola pro governador e sairam pelos fundos, pra não atrapalhar as conversas dos políticos.

Coisa doida. Agora fica a estrada lá, pros carrões voltarem nos finais de semana. "Seu" Isaías ainda anda pelas estradas de terra mesmo, no "pois é" vermelho que custa pra pegar.

Minha festa tem outra cara. Daquelas de tirar a palavra da boca. Fica so o sorriso de quem ta de bem com a vida. Sorriso que eu não sorri na Festa Literária.

Clipe na Roça


Mais uma dessas coisas que surgem do nada..acho que estas são as melhores.
Tem gente que não se conforma com o fato de não marcar hora, não deixar tudo na agenda, esperar até a última hora pra saber se vai não vai...Bem, as melhores coisas surgem assim, de repente. Sem avisar que vem. As ruins também, é claro. Apenas dois lados da mesma moeda.

O fato é que o Bambuíra ligou..queria saber se dava pra subir a montanha e gravar um clipe aqui em casa. Eu disse que sim, claro.
E lá vieram eles. Bambuíra e Lêle, a dupla que está na luta por reconhecimento. Ele é professor aqui na escola municipal. Nossa...conta cada uma que dá dó. Professores que não sabe ler nem escrever. Bambuíra fica lá, faz seu trabalho, e depois vira músico. Ou será que é o músico que durante o dia dá aulas? Só sei que a Lêle, esposa dele, adora.
Canta como um rouxinol, feliz da vida. Dá pra ver nos olhos dela a felicidade. Ela nasceu na roça. Linda.
Com a dupla, veio o Paulinho..que toca bateria, bongô, djanbê, maracas..o cara arrepia em muita coisa..
E veio o Fred, que durante o dia roça os pastos dos homens que tem gado. Fred é inteligente. Fala de espaço, e nem sabia que sabia tocar. Foi lá um dia, pegou no violão, e com algumas aulas já é virtuose. Toca tudo. Tava ele lá na minha sala, sentadinho, com vergonha de ocupar espaço, e quando ele toca a viola, pronto. Celeste.
E veio o Rodrigo pra filmar, com o Folgado e a Rafa. Folgado (qual é mesmo o nome dele) faz de tudo. Cozinha que é uma coisa de louco, eletricista, encanador, marcineiro, faz os pererão lá de Monteiro Lobato, pra cidade ficar bonita cheia de bonecos nas festas.
E então lá fomos nós.Puxa móveis daqui, empurra sofás pra lá, a sala ficou da hora...Tinha luz, vinho quente, tinha equipamentos de montão. Bambuíra tava feliz. Primeiro clipe, vai pra casa de cultura aqui da cidade.

E gente, ficou lindo. Folgado e Rafa ficaram no apoio, ajudando em tudo. Muitas filmagens, muito papo..eu ri demais.
E o clipe vai pra edição agora.
Só quem não gostou da festa foram os filhos do Bambuíra e da Lêle. Não querem saber de viola, nem de tocar o sertão e a Mantiqueira pro povo saber que tem mato com macaco por aqui.
Qdo ficar pronto o clipe, eu aviso. Posto em algum lugar...so pra voces verem que a turma da roça é valente, rústica, mas é também suave e sabe fazer música da boa...
E aqui na roça a vida é assim. Tem hora que não vem ninguém. Silêncio. E tem hora que vem gente..mas aqui, na minha montanha, só sobem os amigos. Quem não é de casa, não vem. Não enfrenta a subida. Dá preguiça.
E viva a roça