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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Crianças peludas


Não há nem deve haver explicação para este cartaz. As imagens falam por si.
Crianças, peludas ou não, não deveriam ser abandonadas.
Humanos, bons ou não, não deveriam ter esta liberdade de dispor de outros seres, humanos ou não.
Pessoas de mau coração, de má índole, cretinos e idiotas, monstros, descuidados e sem o mínimo de consideração não deveriam criar nada. Não são capazes disso.
A criação, seja ela de uma flor ou de um animal, é para os dadivosos, para seres especiais, com ligação no divino.
Criar algo ou alguém é um ato de amor, de doação de vida e carinho, de sustento físico e espiritual.
Conviver com animais é um prazer que deveria ser reservado naturalmente pela Mãe Divina. Apenas os de energia verde poderiam se aproximar e cuidar de animais.
Mas a Mãe é Divina.
Deixa que o solbrilhe sobre todos.
Deixa que a vida prolifere no bem ou no mal.
Deixa que os seres humanos passeem sobre sua superfície como reis.
Mas a Mãe também cuida. Só que a velocidade dela é dferente da nossa. Mas funciona melhor do que a nossa.
E é com isso que eu, milhares de pessoas como eu e todos os animais, extintos ou em extinção, contamos. Nós confiamos na Vida, na Justiça e na força do Bem.
Malditos seres humanos que abandonam e ferem crianças, peludas ou não..
Malditos seres humanos que não respeitam nem dão valor à vida.
No inferno, a única criatura que voces verão será um animal...e será pelas patas dele que voces sairão do inferno..ouviu?? Pela bondade de um dos animais que vcs abanonaram.
Terão que pedir um favor a um animal.
e eu vou querer tirar uma foto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Depressão verde II - a Romântica e um dia de cada vez

Quando se está com depressão o mundo parece que pára. Não gira mais comigo dentro. As coisas acontecem do lado de fora, sem que o deprimido se dê conta.

Mas gente deprimida também sente. E sente muito fortemente. Pelo menos comigo é assim...É um sentir diferente do "normal". Eu sei que amo, mas não sei onde ou como acessar esta parte do sentimento. Eu sei que eu gosto daquilo, desta comida, daquela roupa..de determinado gesto... mas no momento em que a depressão toma conta, é como se tudo isso se escondesse em alguma parte de meu ser que eu não sei onde fica. E como foi que eu quebrei esta ponte?? esta conexão com meus sentimentos??
E como saber quando eles voltarem?? Como saber se, no meio desta nuvem negra, meus sentimentos não foram se modificando, e agora eu não sinto mais como sentia antes?
Como eu vou saber se ainda amo, ou se ainda não amo isso ou aquilo??
Como saber que a depressão foi embora e o que eu estou sentindo é mesmo a falta ou o excesso de um sentimento?? Amor ou outra coisa??
Como saber se quem esta sentindo é realmente eu ou algo transmutado pela dor? pelo não sentir??
Aí a mente pode ajudar, ou atrapalhar.
Porque mentalmente posso dizer para quem quer que seja, que eu amo fulano por isso e aquilo, e que eu não gosto de siclano por este ou aquele motivo. E serei capaz de jurar que tudo é real e verdadeiro.
Posso dizer, agorica mesmo, se amo você ou não, mentalmente, isso é, com todos os raciocínios que me diferenciam dos macacos, sabe aqueles 2% que fazem toda a diferença??
Mas tem uma coisa que a depressão não tira: minha capacidade de pensar.
Então, eu penso assim: eu estou com determinado problema...então vamos ver quem pode me ajudar? como podem me ajudar? quem não está ajudando? De quem eu espero ajuda, e de quem eu não espero nada?
Fico impotente quando vejo pessoas que eu amava antes disso, não faz muito tempo, que não me ajudam em nada.
No silêncio que cobra uma atitude "normal" de quem não pode viver normalmente. No momento que não há uma ressonância no outro ser, quando não retorna nada do outro lado, eu penso na minha importância para estas pessoas, ou na importância que eu dei a elas.
Sabe aquela frase que diz que é na adversidade que se conhece um amigo?
Mesmo com depressão, minha capacidade de pensar ainda está lá..e eu penso nisso. No amor que um dia foi tão vital, tão importante como o ar que eu respirava, e na dor do silêncio que se fez depois. É como se eu não fizesse parte da vida destas pessoas, como se eu nunca tivesse sido importante ou vital para elas.
Querer demais?? Fantasias minhas que caem por terra, por causa da depressão??
Então foi isso?? Inventei tudo?? Senti á mais o que não era tão grande?? me deixei levar por sonhos de menina?? Numa hora de problemas, de fraquezas, é mais ou menos isso o que as pessoas fazem...se enganam para não sofrerem mais.
Mas não adianta. Não sabem elas que acabam sofrendo ainda mais??
Acabei caindo nesta armadilha?? amar sem ser amada..querer ardentemente sem recíproca??
Pode ser amor realmente?? O que é engano: o amor que eu sentia ou o amor que eu achava que recebia??
Pode a depressão me afastar assim do meu coração?? Foi ela quem me fez enganar?? Meu romantismo??
Putz..eu não sei.
Só sei que aquele que amei não está do meu lado.
Descubro que eu tenho que me amar.
Descubro que eu tenho que me querer bem.
Faz tempo que não pinto meus cabelos de vermelho.
Faz tempo que não passo lápis nos meus olhos.
Faz tempo que não sinto prazer.
Faz tempo que eu não sentia tanta vontade de estar comigo mesma.
...e aquele que amei (amo...) .. bem... não é justo cobrar nada.
Cada um faz seu melhor.
Certamente ele também faz o melhor que pode.
No silêncio dele, eu ouço meu próprio respirar.
Dói.
Mas não saber da verdade me dói mais.
Por isso a resposta deve estar em mim mesma.
Se nada pode quebrar o silêncio dele, então não há nada que eu possa fazer.
Viver meu momento, minhas dores, meus dramas, minha depressão..um dia de cada vez.
Romântica?? sou sim..descobri..e faz parte do tratamento muito colo, muito carinho, bons tratos, risos e trocas de amor.
Um dia de cada vez?? Claro, mas sorvido aos goles, aproveitado, desde o momento que durmo ate o momento que durmo..24h por dia, 365 dias por ano.
É assim que eu quero..e é assim que vai ser.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Depressão verde


MANHÃ:

Acordou as 9:22 da manhã com os ruídos da faxineira que limpava o quarto de baixo. Dava pra ouvir o arrastar de móveis, a vassoura batendo na parede, ao passar rápida para tirar o pó. Ela sabia como fazer, pois já tinha feito isso várias vezes, por isso, acompanhava os sons com as imagens em sua mente, começando a despertar da longa noite de sono.
Mas acordada percebe que a longa noite de sono poderia ter sido mais longa. Poderia ter durado mais. Era como perceber de repente, que estava acordando tão cansada como quando se deitou na noite anterior. E pior do que isso, além do cansaço sentia uma vontade enorme de se enfiar nos lençóis, se embolar e sumir ali debaixo das cobertas, torcendo para que ninguém mais no mundo se lembre de que ela existe.

Mas o relógio com ponteiros vermelhos indicam um tempo que não pode ser real...se move muito depressa e ela esta acostumada com um tempo lento, que se arrasta pelos minutos afora, combinando com o calor já alto logo cedo de manha.

"-Levante...vamos..primeiro um pé.. não precisa por os dois de uma vez... vai no seu tempo, mas vai...". A frase se repete para cada movimento, que vai, aos poucos, içando o corpo para fora da cama, pesado, como uma baleia ao sair do mar que a sustentava.

Ela se dirige á porta do banheiro, cansada, arrastando os pés, apoiando as mãos nas paredes ásperas de tijolo rústico. O banheiro esta chegando. A luz que vem lá de dentro mostra um dia ensolarado, e a visão do sol vai animar a criatura que agora entra triunfante. No banheiro as coisas parecem melhorar. Não olhando para o espelho, lava as mãos, a boca amarga, escova os dentes, penteia o cabelo sujo, e marca para a noite um banho mais demorado.

"-Vamos, vista-se". Qualquer coisa serve..qualquer coisa serve..."...

TARDE:

"-Calor infernal, sol forte, nada de energia para andar, mexer os dedos, rir ou bocejar. Está se arrastando pela casa, achando que tudo vai mudar. Isso é bom, ela pensa. Mudar é bom. Mudar é a ordem do universo. "Todo lo cambia", diz a música.
Eu também vou mudar. Amanhã tudo vai ser diferente.
Não há vontade de comer..de cozinhar..ai meu deus..cozinhar é um drama, onde tudo dói, tudo perde controle..o sal e o açúcar comandam as colheres..
quando é mesmo a hora de dormir?? Vai mais cedo pra cama hoje. Quem sabe amanhã melhora...
Quando o remédio fizer efeito, tudo muda.
Sono.

NOITE:
Silêncio.Ela dorme pesado, as vezes com dificuldades de acordar.
Amanhã tudo ficará melhor.
Quando o remédio fizer efeito.
Tudo vai mudar.
amanhã.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Maluá, curvas de rio

Fui andar. É bom caminhar pela estrada do sítio. Dá pra ver os seres pequenos que habitam no mato, dá pra acompanhar o crescimento dos pinheiros que brotaram todos em linha reta, como soldados de madeira. Dá pra brincar com os cães, que adoram brincar no rio e chegam molhados e cheirando mal...

E por falar em cheirar mal, roça também tem bezerro morto no meio a estrada, cujo dono largou lá apodrecendo porque dá trabalho recolher bicho morto. O povo aqui costuma jogar tudo no rio. Coisa medonha de ser fazer. O cadáver vai afastando , se enroscando nos galhos e pára, invariavelmente, numa curva de rio.

E eu com isso??? É que eu tenho uma curva de rio na minha propriedade. E isso quer dizer que tudo pára lá. Mas isso é outra estória.

E lá fui eu, andando pela roça, quando viro a esquina de terra e vejo quem?? Silvio e Vivi, meus queridos amigos e Maluá e Cristiane.
Ai começa minha estória;
Coisa de gente diferente, de amigos que se misturam na natureza e inspiram outros a dar valor ao verde e à vida.
Maluá é dedo verde. Caboclo rústico, anda descalço, pegou uma preá morta do chão com os dedos e foi jogar na mata. Já tava cheirando mal. Ufa, pensei. Rústico.
Eles moram em casa simples, casa de gente da roça. Mas já foram pra Suíça, plantar cerejas. A Cris, quando chegou lá, teve um AVC. Veio de maca pro Brasil. Perderam tudo pra voltar pra casa. Sabe como é...gente sem documentos, em hospital da Suíça, acaba pagando muito. Aí voltaram pra roça, aqui na terra brasilis.

E foram morar perto do sitio do Pica-pau amarelo. Por isso eles acham que moram num vortex de maluquice, fruto da aproximação com o Sítio, local já conhecido pelas maluquices.

Maluá e Cris é um casal comum, só que não são comuns em sua vida comum. São seres diferentes dos outros que caminham pelo asfalto ou terra.

Quer ver?? Eles tem uma ovelha, a Méh, que anda com os cães como se fosse um deles. Quando os cães se agitam, correndo atrás de carros ou motoqueiros pela roça afora, a Méh sai quicando nas 4 patas, durinha, correndo aos pulos com os cães, engrossando o caldo da gritaria.
Quando a Cris e o Malúa chegam de carro, é a Méh quem chega primeiro pra festa no pelo macio e branco.
O galo adora um pato, que se entrega feliz aos prazeres com o galináceo, que procura pelo amante pato no meio dos animais. Se adoram.
Tem também um bode que adora as vacas. Não pode ver uma no cio, que sai feito doido atrás da tal, achando que é um boi dos bons. E aí do boi que for reclamar da diferença de espécies... aí do boi, que leva chifrada na barriga. O Bode já quase matou um assim.

Ninguém comenta estas coisas, porque aqui é assim..tem passagens para locais e pessoas diferentes do normal, tem lugar pra bode trepar com vaca, pra bater em boi. Tem lugar pra galo trepar com pato sem problema de consciência. Tem lugar pra ovelha que pensa que é cachorro.

Tem lugar pra sentar na varanda e pitar um pitinho da roça, destes que fazem figuras de fumaça no ar.
Tem lugar e tempo pra viver, e viver bem...
Vem, vem pra roça você também.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Telefone na roça

Pena que eu joguei a carta fora. Sei agora que não deveria ter feito isso.

A coisa é que de vez em quando resolvo jogar fora tudo o que está parado, tentar arrumar o que está quebrado, dar o que ainda pode ser usado..e quando se joga aquilo que não vai mais usar é justamente quando se abre as portas para o Universo enviar alguém ou alguma coisa para pedir ou precisar daquilo que se foi lixo abaixo.

Bem, o assunto era a tal carta perdida para sempre. Mas para dizer o que havia nesta carta, eu preciso contar uma estória antes.
E a estória começa com minha vinda pro Shire. Entre outras coisas, na bagagem eu trazia uma linha telefônica recebida de herança, ainda da época em que se comprava ações da Telefônica. Vim pra roça com estas ações, e liguei pra tal empresa pedindo que a linha fosse ligada aqui em casa. Eu sabia que não havia telefone por cá, mas achei que pela expansão e por necessidade, logo teríamos o tal aparelho funcionando no mato.

A atendente me disse que meu pedido havia sido feito, que o técnico faria uma visita no local.
E assim foi feito.
Recebi algumas semanas depois a tal da carta, dizendo que o técnico havia visitado o local (meu sítio) e constatado que, para puxar uma linha telefônica era preciso eu comprar 4mil metros de cabos telefônicos e 8 postes, fazendo uma carta doando esse material para a tal empresa. E deveria depois pagar a quantia de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) para a dita.
Liguei pra empresa, pedindo explicações do montante. Não houve nenhuma. Assim fica fácil fazer expansão, às custas do assinante... que vergonha.

Agora me deu vontade de fazer o mesmo pedido. Vou ligar pra pedir uma visita técnica, e ver por quanto fica colocar uma linha telefônica aqui no sítio...quando eu receber uma carta deles, eu posto aqui pra todo mundo ver que isso não é conversa de pescador.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nada demais

Hoje não tenho nada demais pra dizer. Não que eu não tenha feito nada; ao contrário, trabalhei, e muito, o dia  todo.
E como foi meu dia? Maravilhoso.
Acordei cedo, e fui ver na janela o ar lá fora..se chuva, se sol...e tinha neblina, e isso é sinal de dia com sol forte, abrasante, na verdade. As 9 da manhã, 8 no horário normal, já estava quente aqui na roça.
Aí, como é de praxe, um café pretinho, na porta da cozinha.
Depois, ração dos gatos.
Roupa de guerra. Tá quente, então, roupa leve, mas não vestido, porque eu vou sentar no chão, pintar, subir escada...melhor calça curta, blusinha leve, cabelo preso porque ontem eu deixei ele solto e ficou cheio de fios manchados de tinta.
Desci a montanha. Enquanto minha casinha lá embaixo não fica pronta, eu durmo aqui na casa sede. Ela um dia já foi minha, mas agora não é mais.
Ração dos cães.

A montanha não é alta, mas a descida é brava. O chão estava úmido por causa do sereno da noite. Ainda tinha muito mato molhado, meu carro saiu da fita de concreto da estrada interna e "puff" bati numa pedrinha, que, se olhar pelo lado positivo, impediu que meu carro saísse deslizando montanha abaixo.
Seja lá como for, cheguei na minha casinha, que aqui no sítio Santa Roça recebeu o nome de "casinha da Curva", porque foi construída numa curva...(erghhh!!)
E aí, pintei uma porta, quatro janelas, patinei um aparador, uma janela, arrumei caixas e mais caixas, fui pra Monteiro, 11 km daqui. Fui olhando pro ponteiro do combustível, que estava cada vez mais perto do zero. Acho que imaginei as "tocidas" que o carro deu, perto da cidade. Foi perto. Cheguei no bafo.
Lá eu fui ver se meus caixotes de feira tinham chegado..nãooooo..buááááááá...
Mas peguei a roçadeira, enchi o tanque e fiz compras.
Entrei no carro e fui pra outra cidade, São Chico, que fica do lado de Monteiro.
Lá fui direta no depósito de material de construção. Comprei mais tinta, avisei que meu caseiro iria sair depois do almoço. Eu sabia que isso cancelaria o caminhão que estava pronto pra sair e fazer uma entrega lá no sítio. Marquei para amanhã de manhã cedo.

Voltei correndo pra casa. Deixei Dona Francisca arrumando a roupa da casa sede e já estava atrasada para juntar-me a ela lá na casinha da curva.
Era hora do almoço, mas nem eu nem ela paramos para comer.
A casinha da curva durante um bom tempo serviu de moradia para os caseiros que trabalharam aqui. E o estado das paredes, do banheiro, do chão, dos móveis..nossa. Que lixo, que sujeira, que nhaca. E tanto trabalho numa casinha tão pequenina.
Móveis reformados, alguns sem chance de reforma foram dados. Aqui na roça, o que não serve pra alguns pode muito bem servir para outros. Mas acho que isso não é privilégio da roça.
No final da tarde, descobrimos que as vacas do vizinho entraram pela porteira aberta...que droga. Dona Francisca me ajudou. Chamou meus cachorros e lá foi ela, pulando feito uma gazela pelo mato, tocando as vaquinhas fedidas que saíram correndo quando Melão e Zica saíram correndo atrás delas.
Fechei a casinha da curva. Eu já não aguentava mais. Meu celular, que não pega na roça, marcava 19:17 quando eu entrei no meu super cupê fiat way economic e subi a montanha, morta e louca pra tomar um banho.
Depois do banho, lazanha Sadia 4 queijos, enquanto falava com minha irmã pela net, MSN.
Aí, a hora do descanso. 
Beijei meus gatos, desliguei todas as luzes da casa, desliguei os aparelhos das tomadas e fui dormir.
Bem, antes, é claro, sentei aqui pra escrever, nada demais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Qual sua primeira lembrança??

Qual a sua primeira lembrança?? A primeira lembrança...Depois que se vive muito, quase como se várias vidas em uma só, lembrar a primeira memória é quase um desafio da alma.

Pensar em memórias guardadas quimicamente também é um desafio de alma para mim. Resgatar estas memórias através de um elemento químico, ou deixar de faze-lo por falta de oxigenação no cérebro..tudo isso é muito louco pra mim.
Por incrível que pareça, para mim fica bem mais fácil acreditar que, em algum lugar no cosmos, existe espíritos e mundos alternativos em outras dimensões. E que guardamos nossas memórias em alguma caixinha sagrada em algum cofre nestas dimensões. um coração talvez.

A minha primeira lembrança é clara.
Eu estava sentada no chão. Na altura dos meus olhos, uma tesourinha de plástico cor-de-rosa em cima de uma mesa baixa. Eu lembro de olhar para a parede e ver a janela fechada com persianas, embora fosse dia ainda e eu visse o sol passando pelas frestinhas de madeira.

Lembro da minha alegria em cortar pedaços de uma revista ou algo feito de papel que eu achei sobre esta mesa. Passar a tesoura quase sem mexer os dedos, deslizando rapidinho pelo papel.

Lembro do som dos passos de minha mãe e alguns gritos que eu não entendi. Mas para mim estava tudo bem. Eu tinha me divertido pacas com aquela tesourinha.

Contei para minha mãe, minha companheira nesta lembrança. Ela esteve comigo e saberia dizer se eu estava mesmo lembrando ou inventando.

Conforme fui contando com os detalhes do sol pela janela, cor da tesoura, persianas, minha mãe ia arregalando os olhos: Putz..era verdade. Eu havia ganhado esta tesoura de uma tia, que mora no Rio de Janeiro. Enquanto minha mãe trancava a casa e fechava as janelas para sair, ela me deixou no chão da sala, com minha tia e a tesoura, mas colocou também o seu título de eleitor, pois estava se preparando para votar para presidente. Eu picotei o título dela... 

Colou com durex e o mesário entendeu.
Eu tinha um ano e meio.

Hoje, ainda tenho viva a sensação das persianas ensolaradas e o prazer de picotar o título da minha mãe.

Química?? Em que elemento químico ficou grudado aquele sol pela janela?? Em que neurônio eu guardo as sensações daquela tarde de votação??

Eu não sei nada disso... Vocês guardem suas memórias onde quiserem...  ... eu guardarei numa caixa, guardada num cofre, guardado numa dimensão onde os espíritos vivem.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A índia e a ayuasca

Não que eu goste de novidades. Puxa, no horóscopo chinês eu sou coelho, ou gato. Isso quer dizer que ou gosto de me enfiar na toca, medrosa de novidades, ou gosto muito de almofadas, dentro da toca, com pouca novidade, por favor. No mundo de Tolkien, eu seria uma ótima hobbit, com nome de flor, feliz por ter minha toca de porta redonda, cheia de flores no jardim, horta no quintal.

Mas a vida tem grandes novidades para quem nem pensa em ter experiências diferentes, com grandes aventuras.

E, como se algum Gandalf da vida tivesse batido na minha toca de porta redonda, eu fui levada a viver estas aventuras.

E lá fui eu para uma reunião em Ubatuba, com pessoas amigas, com o intuito de tomar a bebida feita pela junção de um cipó com uma folha. E eu bebi a ayuasca, em um lindo ritual no meio da mata, numa casinha linda feita de vidros. Esta foi a primeira vez.
Depois desta, mais algumas aconteceram. Em cada uma, uma estória.

A que eu venho contar se deu em uma propriedade em Piedade, na casa de uma amiga, depois de algumas horas da ingestão da ayuasca. Eu me deitei, e fechei meus olhos..e tudo aconteceu.

Uma linda floresta foi se formando bem na minha frente, com árvores que nasciam de pequenas sementes e que, em segundos, já estava gigantesca..e assim eu ia andando, e a floresta ia se formando. Quando já estava bem fechada a mata , uma clareira se abriu e eu estava nela, vendo o céu estrelado lá em cima, na brecha redonda que a floresta me abria.

Com a luz que vinha da lua, eu pude ver, no meio de uma casca de árvore (eu sei que parece estranho, ma eu estava tendo uma alucinação provocada pelo dimetil..alguma coisa), dois olhos, finamente pintados como os egipcios pintavam..e juro, estavam no meio da casca da árvore..aí aproximei meus olhos e ví sua boca, e depois o contorno do rosto..e assim, uma índia foi surgindo do meio da casca da árvore...e foi crescendo, como se ela fosse uma árvore gente, agigantando-se até ficar bem maior do que qualquer uma daquelas árvores. E aí eu voltei, quando minha amiga entrou na casa, convidando-me para um lanche para esperar o sol nascer..é claro que eu fui. Café preto, pão torrado com manteiga derretendo na fatia cheirosa, e o sol nascendo, com a cabeça cheia de ayuasca..foi realmente interessante.

Mas não foi isso o interessante. É que semanas depois, outro amigo, de Atibaia, convidou-me para uma exposição de quadros que ele havia pintado ao longo de alguns anos. Seu retorno ás artes. Claro que fui. Estacionei o carro numa praça deliciosa perto do casarão que a prefeitura havia reformado para estes eventos. Fui subindo as escadas e bem lá no alto, posto para receber os convidados da vernisage, estava um quadro grande, com uma índia pintada. Estava nua, sentada pudicamente numa pedra num curso raso de água. Ela segura uma espada, que divide o quadro em 2 triângulos. E dando a volta na cena, a figura do Ouroboros, a cobra que morde o próprio rabo, indicando um ciclo finito, quando a cobra por fim entende que pode quebrar o ciclo vicioso e mudar..Como a roda das encarnações..várias vidas, várias vidas até que o ser enfim entende que pode parar com isso..melhorar..quebrar o erro que o faz repetir incontáveis vezes porque ainda nao havia entendido.

E lá estava eu meditando sobre tudo isso quando vi seus olhos.Os mesmos que eu havia visto na "viagem" com ayuasca. Pintados como na visão...me olhando.

O quadro hj esta em cima da lareira, no centro da sala. Eu estou me separando. Mas o quadro vai comigo.

Vou levar este quadro em cada toca de hobbit que eu for morar. Ninguém precisa conhecer a estória toda do quadro. Só eu.

sábado, 9 de outubro de 2010

Sabe a emoção da primeira vez??

Todo mundo já teve suas "primeiras vezes" em tudo, isso é claro. Mas tem "certas" primeiras vezes que ficam na mente, pelo menos na minha..ficam numa região de fácil acesso, inclusive. Memória fácil de recuperar.

Eu estava em Ubatuba, passando uns dias na casa de amigos. Conversávamos no deck amplo da casa de madeira no alto de um morro, cheio de árvores e com vista pro mar..puxa, casa linda a deles.

Falávamos sobre livros. Perguntei pra Lígia: "-Você já leu "O Senhor dos Anéis", do Tolkien??". Ela me dirige um olhar meio triste, meio safadinho e diz"-Ai, menina..infelizmente sim..eu nunca mais vou ter aquela sensação de quando eu o lí pela primeira vez..entende??".

Eu entendi, na hora. Concordei. Não poderia ter dito melhor. Nas outras vezes, quando relí suas obras, eu sabia que aquela sensação estava lá..já era minha conhecida. Na primeira vez, eu não tinha com que comparar minha sensação..era novinha em folha..magia pura.

Eu adoro sentir esta sensação..São raras, é claro. Mas por isso mesmo, são esperadas com alegria..e quando chegam..ahhhhh..que delícia, deixar-me levar nas ondas novas deste descobrir, do contentamento..do prazer.

Rarindra Prakarsa, um fotógrafo indonésio, me deu este presente estes dias.
Fotos que traduzem poemas,milhões de palavras que se calam diante daquelas imagens do cotidiano de crianças, senhores de pele em papiro, pescadores em lugares paradisíacos, raios de luz entre árvores gigantes, ents que falam aos ventos suas memórias e seus medos...

Lindo..vale a pena compartilhar gente assim..aliás, só gente assim se vale compartilhar..

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Uma odisséia na roça


Tudo bem..

Vivo numa área de proteção ambiental..não posso passar trator pra arrumar 600 metros de estrada interna..tem que fazer na enxada...mas pra quem nunca tentou, enxada em estrada de terra, depois de uma madrugada de chuvas, é um tesão..a terra tá macia e a enxada desliza como faca na manteiga. E o cheiro então?? Putz.."parece que eu to abrindo um presente" (esta frase foi dita pelo pedreiro mais lindo que eu já vi..pele bronzeada, cabelos negros, olhos azuis, cavando uma fossa aqui ao lado da casa..me disse "Dona, que cheiro de terra bom aqui em baixo...parece que eu to abrindo um presente"...vê se pode isso?? Não é louco??

Tenho comunicação via rádio, ainda precária aqui no alto da montanha, nos meses de fortes chuvas e raios e trovões e ventos fortes...mas quando o espetáculo da Natureza acaba, o homem se põe a correr e a religar o que caiu e pronto..algumas horas depois, tudo aceso novamente.. :D

Para comprar uma aspirina tenho que rodar kms de estrada para chegar numa farmácia pequena, cujo dono é deputado e tem uma pequena pousada nos fundos da farmácia, única da cidade..ainda corro o risco de não ter.. :D Chás ajudam e terra não me falta...eu resolvo com a natureza em volta.

Se alguma coisa queimar, tipo a minha geladeira, bem..não vou encontrar ninguém pra arrumar...ai fico semanas usando a dita cuja só como armário..e estranhamente deu certo...não estragou nada nestas semanas...e água gelada aqui tá garantida sempre..vem da mina..fria como Deus gosta.

Sou da roça..descobri meu mundo..mas..e daí??
como qualquer ser desde os tempos das cavernas, meu olhar se ergue aos céus em êxtase quando vê tanta estrela lá em cima..adoro astronomia..olha só isso:
o veículo se chama Lunar Eletric Rover (LER) e será testado agora em setembro no deserto do Arizona.. que é isso?? que maravilha..parece 2001- Uma Odisséia no espaço..estamos chegando lá, Kubrick, estamos chegando lá...