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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A índia e a ayuasca

Não que eu goste de novidades. Puxa, no horóscopo chinês eu sou coelho, ou gato. Isso quer dizer que ou gosto de me enfiar na toca, medrosa de novidades, ou gosto muito de almofadas, dentro da toca, com pouca novidade, por favor. No mundo de Tolkien, eu seria uma ótima hobbit, com nome de flor, feliz por ter minha toca de porta redonda, cheia de flores no jardim, horta no quintal.

Mas a vida tem grandes novidades para quem nem pensa em ter experiências diferentes, com grandes aventuras.

E, como se algum Gandalf da vida tivesse batido na minha toca de porta redonda, eu fui levada a viver estas aventuras.

E lá fui eu para uma reunião em Ubatuba, com pessoas amigas, com o intuito de tomar a bebida feita pela junção de um cipó com uma folha. E eu bebi a ayuasca, em um lindo ritual no meio da mata, numa casinha linda feita de vidros. Esta foi a primeira vez.
Depois desta, mais algumas aconteceram. Em cada uma, uma estória.

A que eu venho contar se deu em uma propriedade em Piedade, na casa de uma amiga, depois de algumas horas da ingestão da ayuasca. Eu me deitei, e fechei meus olhos..e tudo aconteceu.

Uma linda floresta foi se formando bem na minha frente, com árvores que nasciam de pequenas sementes e que, em segundos, já estava gigantesca..e assim eu ia andando, e a floresta ia se formando. Quando já estava bem fechada a mata , uma clareira se abriu e eu estava nela, vendo o céu estrelado lá em cima, na brecha redonda que a floresta me abria.

Com a luz que vinha da lua, eu pude ver, no meio de uma casca de árvore (eu sei que parece estranho, ma eu estava tendo uma alucinação provocada pelo dimetil..alguma coisa), dois olhos, finamente pintados como os egipcios pintavam..e juro, estavam no meio da casca da árvore..aí aproximei meus olhos e ví sua boca, e depois o contorno do rosto..e assim, uma índia foi surgindo do meio da casca da árvore...e foi crescendo, como se ela fosse uma árvore gente, agigantando-se até ficar bem maior do que qualquer uma daquelas árvores. E aí eu voltei, quando minha amiga entrou na casa, convidando-me para um lanche para esperar o sol nascer..é claro que eu fui. Café preto, pão torrado com manteiga derretendo na fatia cheirosa, e o sol nascendo, com a cabeça cheia de ayuasca..foi realmente interessante.

Mas não foi isso o interessante. É que semanas depois, outro amigo, de Atibaia, convidou-me para uma exposição de quadros que ele havia pintado ao longo de alguns anos. Seu retorno ás artes. Claro que fui. Estacionei o carro numa praça deliciosa perto do casarão que a prefeitura havia reformado para estes eventos. Fui subindo as escadas e bem lá no alto, posto para receber os convidados da vernisage, estava um quadro grande, com uma índia pintada. Estava nua, sentada pudicamente numa pedra num curso raso de água. Ela segura uma espada, que divide o quadro em 2 triângulos. E dando a volta na cena, a figura do Ouroboros, a cobra que morde o próprio rabo, indicando um ciclo finito, quando a cobra por fim entende que pode quebrar o ciclo vicioso e mudar..Como a roda das encarnações..várias vidas, várias vidas até que o ser enfim entende que pode parar com isso..melhorar..quebrar o erro que o faz repetir incontáveis vezes porque ainda nao havia entendido.

E lá estava eu meditando sobre tudo isso quando vi seus olhos.Os mesmos que eu havia visto na "viagem" com ayuasca. Pintados como na visão...me olhando.

O quadro hj esta em cima da lareira, no centro da sala. Eu estou me separando. Mas o quadro vai comigo.

Vou levar este quadro em cada toca de hobbit que eu for morar. Ninguém precisa conhecer a estória toda do quadro. Só eu.

sábado, 9 de outubro de 2010

Sabe a emoção da primeira vez??

Todo mundo já teve suas "primeiras vezes" em tudo, isso é claro. Mas tem "certas" primeiras vezes que ficam na mente, pelo menos na minha..ficam numa região de fácil acesso, inclusive. Memória fácil de recuperar.

Eu estava em Ubatuba, passando uns dias na casa de amigos. Conversávamos no deck amplo da casa de madeira no alto de um morro, cheio de árvores e com vista pro mar..puxa, casa linda a deles.

Falávamos sobre livros. Perguntei pra Lígia: "-Você já leu "O Senhor dos Anéis", do Tolkien??". Ela me dirige um olhar meio triste, meio safadinho e diz"-Ai, menina..infelizmente sim..eu nunca mais vou ter aquela sensação de quando eu o lí pela primeira vez..entende??".

Eu entendi, na hora. Concordei. Não poderia ter dito melhor. Nas outras vezes, quando relí suas obras, eu sabia que aquela sensação estava lá..já era minha conhecida. Na primeira vez, eu não tinha com que comparar minha sensação..era novinha em folha..magia pura.

Eu adoro sentir esta sensação..São raras, é claro. Mas por isso mesmo, são esperadas com alegria..e quando chegam..ahhhhh..que delícia, deixar-me levar nas ondas novas deste descobrir, do contentamento..do prazer.

Rarindra Prakarsa, um fotógrafo indonésio, me deu este presente estes dias.
Fotos que traduzem poemas,milhões de palavras que se calam diante daquelas imagens do cotidiano de crianças, senhores de pele em papiro, pescadores em lugares paradisíacos, raios de luz entre árvores gigantes, ents que falam aos ventos suas memórias e seus medos...

Lindo..vale a pena compartilhar gente assim..aliás, só gente assim se vale compartilhar..

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Uma odisséia na roça


Tudo bem..

Vivo numa área de proteção ambiental..não posso passar trator pra arrumar 600 metros de estrada interna..tem que fazer na enxada...mas pra quem nunca tentou, enxada em estrada de terra, depois de uma madrugada de chuvas, é um tesão..a terra tá macia e a enxada desliza como faca na manteiga. E o cheiro então?? Putz.."parece que eu to abrindo um presente" (esta frase foi dita pelo pedreiro mais lindo que eu já vi..pele bronzeada, cabelos negros, olhos azuis, cavando uma fossa aqui ao lado da casa..me disse "Dona, que cheiro de terra bom aqui em baixo...parece que eu to abrindo um presente"...vê se pode isso?? Não é louco??

Tenho comunicação via rádio, ainda precária aqui no alto da montanha, nos meses de fortes chuvas e raios e trovões e ventos fortes...mas quando o espetáculo da Natureza acaba, o homem se põe a correr e a religar o que caiu e pronto..algumas horas depois, tudo aceso novamente.. :D

Para comprar uma aspirina tenho que rodar kms de estrada para chegar numa farmácia pequena, cujo dono é deputado e tem uma pequena pousada nos fundos da farmácia, única da cidade..ainda corro o risco de não ter.. :D Chás ajudam e terra não me falta...eu resolvo com a natureza em volta.

Se alguma coisa queimar, tipo a minha geladeira, bem..não vou encontrar ninguém pra arrumar...ai fico semanas usando a dita cuja só como armário..e estranhamente deu certo...não estragou nada nestas semanas...e água gelada aqui tá garantida sempre..vem da mina..fria como Deus gosta.

Sou da roça..descobri meu mundo..mas..e daí??
como qualquer ser desde os tempos das cavernas, meu olhar se ergue aos céus em êxtase quando vê tanta estrela lá em cima..adoro astronomia..olha só isso:
o veículo se chama Lunar Eletric Rover (LER) e será testado agora em setembro no deserto do Arizona.. que é isso?? que maravilha..parece 2001- Uma Odisséia no espaço..estamos chegando lá, Kubrick, estamos chegando lá...

Mankiller


Tem dias que as coisas vão acontecendo e me levando para lugares diferentes, inusitados e portanto, fortes candidatos à serem interessantes para mim.

Domingo na televisão é um lixo, e mesmo nos canais à cabo tem momentos negros, gaps de lixo..deixei de ver em que canal estava e fui simplesmente zapeando , ouvindo um pouco do programa, vendo s gostava...e assim, achei um programa que falava sobre uma mulher, índia cherokee, chamada Wilma Pearl Mankiller.
Que nome maravilhoso, eu pensei. Que presença forte e linda desta mulher. Pérola e matadora de homens... :D
Ela foi chefe da Nação Cherokee por 10 anos, lutando pelo seu povo junto a nação "branca"...
Filha de índio nativo e holandesa..combinação perfeita... Tudo bem, vou puxar um pouco pro meu lado holandês.. sou fã destes malucos.
Morreu em abril deste ano.
Lutou para que homens e mulheres construissem juntos um mundo melhor, literalmente... Conseguiu os canos para fazer o sistema de esgoto das casas cherokee, mas quem cavou, arrastou, colou, uniu e tapou de volta foram os moradores..juntos...

Putz..forte exemplo do que pode ser feito quando no unimos...

é mágico ver como a realidade desperta em mim as mesmas sensações de prazer e felicidade que os livros quando falam de heróis e gente diferente da massa...não é bom saber dos heróis reais??

domingo, 12 de setembro de 2010

Deus na roça


Sabe, nesta cidade tem mesmo tudo.
Ontem fui convidada para um jantar num sítio na estrada da Santa Bárbara, no quilometro lá longe mantiqueira acima comer pizza feita em casa.
E lá fui eu. Noite já. Logo depois de passar o trevo de São Chico eu já sabia que eu ia me perder. è diferente de cidade. Na cidade vc tem mapa, tem guia on-line que te da a direção certa, as ruas á esquerda e direita pra se entrar.
Putz... na roça não tem mapa..as ruas são de terra, os números são longas seqüências de números, mostrando que os quilometros estão a passar. As casas, geralmente, estão longe da porteira e perguntar fica impossível. Então, com o presentinho no banco ao lado, é pisar no acelerador e se perguntar se , da última vez, aquela lixeira, ou aquele poste, ou aquela porteira, estava lá... se é conhecido o terreno...aiii. Segue em frente com o coração na garganta, aquela escuridão com o céu mais estrelado do que nunca.

E sobe montanha. Sobe. Sobe. Sobe. Vira à direita na lixeira depois do bar e vai subindo.
Depois de um tempo, virei na igreja. Era óbvio, naquele momento pelo menos ficou, que eu havia me perdido outra vez.
Desci..e na lixeira depois do bar, virei à esquerda. E subi, subi, subi, e subi mais um tanto.
Á direita ví a porteira dos amigos.

Casinha de caboclo, pequenina. Fogão á milhão, com torradas, vinho..bom papo..e papo vem e papo vai, um amigo da roda conta que foi visitar o atelier de um vizinho. Ele faz máscaras venezianas, lindas e coloridas, naquele visual chique do carnaval da cidade italiana.
Meu amigo disse que ficou um bom tempo lá, batendo papo com o artista, que é budista. Falaram sobre os vários caminhos de Budha.

Poxa, eu tava gostando tanto de ouvir, que até levei um susto quando o amigo disse que o artista levantou a blusa e mostrou um revolver calibre 38 que estava na cintura. E apontou para detrás da cortina mostrando uma escopeta calibre 12, encostada na parede. E ai meu amigo notou os dois rotweillers na porta, parte da mesma estratégia de "segurança".

Budista.

Roça escura, estrada vazia de gente, com casas distantes. Na floresta em torno, só escuridão.
Não culpei o budista fajuto.

Pensei em mim mesma, na solidão da montanha.

Deus na roça é para os corajosos e os ingênuos.
Deus é confiar no Universo, que tudo vai dar certo.
Deus é se jogar do despenhadeiro de braços abertos e acreditar que lá embaixo é tudo rosa.
E é.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Zica Wicca Kuíka


O nome é complicado, mas ela é bem simples. Na verdade, a estória é simples. Ela chegou toda cheia de cortes, bernes, magra com os ossos aparecendo. Eu chegava perto e ela fazia xixi, com o rabo no meio das pernas, morrendo de medo. Eu chorava, de dó.

Ela tinha medo de humanos... e eu fiquei com vergonha. Desculpa, cachorrinha, porque tem gente bem ruim por ai..e ai eu não agüentei. Peguei a cadelinha magrela, e pronto.
Fim da estória.

Mas não é bem assim, né??
Depois dos bernes tirados, do banho tomado, da injeção contra doenças, da cirurgia pra tirar uma bola enorme de pus..cirurgia esta feita na minha lavanderia mesmo...

Ai, pensei, vou chamar o Fernando. O dr. Fernando, vet aqui da região. e lá veio ele, com seu fusquinha montanha acima, com tudo dentro do carro. Anestesia, esparadrapos, seringas, bisturi, tudo. Eu ajudei. Foi lá na mesa mesmo. Ela nem percebeu. Eu que achei o máximo. Deu tudo certo..êta roça!!

E depois da cirurgia veio os sapatos comidos..tantos sapatos, perdi até a conta. Roupas rasgadas...até meu vizinho subiu a montanha a cavalo, bravo que doía ver o homem ali da cela dele...

"-Tua cadela matou uma das minhas vacas".
"-Não pode ser..como foi isso??".
"-Ela mordeu as patas da vaca que correu e rolou a montanha, morrendo lá embaixo. Foi por causa da cadela, que morde as patas das minhas vacas"..
"-Moço, não vai mais acontecer".

E fazer cumprir a palavra não é fácil.
Ela mordia mesmo. Eu gritava, não adiantava.
Tive que dar a cadela...e lá se foi a Zica, montada na caçamba do carro, tremendo novamente.

Dei a Zica pra minha vizinha, que tem muitos cães. Dei porque tinha a promessa de devolver caso não desse certo... e é claro que não deu. A Vizinha ligou, brava:
"- Não quero mais tua cadela. Ela já matou uma das minhas galinhas. Vem já buscar esta cachorra".. e lá fui eu, buscar a Zica, mais feliz do que outra coisa.

Sou "mãe" mas não sou cega..tenho uma cadela que só da problemas..mas que eu amo de paixão.
Final do ano passado me deu 9 cachorrinhos. 2 morreram de verme, um morreu afogado numa chuva forte que deus mandou logo na noite que eles nasceram.
O restante eu dei. Fui na praça da cidade vizinha, com eles no colo. E fui de pessoa em pessoa, sentada nos bancos, nos balcões dos bares, nos portões de suas casas, entrei até no supermercado da dona Maria, minha amiga.

Dei todos.

A última foi a Totóca, depois adotada pela turma do acampamento. Era a mais doentinha... ficou boa, mas parte do pescoço se foi com os vermes que comeram ela, dentro do ninho na mata..tiramos com pinça, todos... e passado a fase..ficou boa. 
Deu dó quando eu dei. Eu queria ela para mim... mas tudo bem.


Agora to com a Zica por ai. Depois que voltou da vizinha me obedece mais. Eu grito o nome dela e ela vem correndo.
Acho que viu que humanos são "bichos" estranhos. E eu vou aprendendo a conviver com a Zica Kuíka...

Alguém quer uma cadela?? Nãoo douuuuuu!! :D



domingo, 1 de agosto de 2010

Wicca Cuíca

Eu nunca tinha tido cachorro. Muito menos me interessei em estudar as raças antes de escolher. Fui num shopping de bairro e lá estava a feirinha de animais. Num "chiqueirinho" eu vi umas bolinhas de pelos brancos, pulando uns com os outros, dando gritinhos de alegria "infantil". Rusky Canadense, foi a resposta sobre que raça era. Preço de mil reais, com pedigree e tudo. Barato, eu pensei, ainda ganha a vacina aqui no shopping mesmo.

Ego nas alturas, porque ao sair do shopping, a roda de gente querendo saber da bola branca era grande e crescia se eu não saísse andando.

Filhotes comem tudo. Tudo bem. Wicca comeu tudo. Comeu meu manacá do vaso. Comeu minhas roseiras e acabou com meu jardim, que parecia antes dela um éden pequenino e suave no meio do concreto da casa, na vila mariana. Comeu sapatos e corria atrás dos gatos. Foi um inferno.

Na noite de inauguração de uma grande loja de livros na cidade de São Paulo, eu enfrentei o engarrafamento com ela no colo, sofrendo por causa da noite quente. Liguei o ar condicionado e deixei a Wicca no meu colo, tomando vento frio no rosto. Uma menina que pedia dinheiro numa esquina parou na janela, nariz no vidro. Ela ria. Abri a janela, e ela disse com grandes olhos arregalados: que linda, enfiando as mãos para acariciar o pelo macio e alto da Wicca, que adorou o carinho inesperado.

Na foto Wicca segura uma bola verde, que assumia vezes de filhote, nos momentos em que Wicca sofria de gravidez psicológica. Ela agarrava a bola e ninguém chegava perto. Só eu.

No calor, gelo no quintal.

Pra passear, só um homem forte. Eu não tinha forças para segurá-la.

Paguei um ano e meio de handler. Foi ótimo. O Paulo é um moço maravilhoso, e as aulas fizeram bem. Não nego. Mas não ajudaram muito com ela. Selvagem, auto suficiente, mandona e ciumenta.

Quando viemos pro mato, ela foi dada para um casal.

Um dia, tomando café em São Paulo numa padaria de esquina, passou o novo dono com um envelope nas mãos. Nos viu de relance e entrou na padaria atrás da gente. Ai, pensei, ele vai querer devolver a Wicca, que eu chamava carinhosamente de Wicca Cuíca.

Mas foi o contrário. Ele abriu o envelope e me deu as fotos dela, linda, penteada, com um laço enorme cor-de-rosa. Os olhos do homem se encheram de lágrimas e ele nos disse: "-Não foi voce que me deu a Wicca, foi Deus".

Sabe aquilo que te pega sem esperar? Até hj eu agradeço o milagre da Wicca.
Cães eu tenho e vou falar deles mais na frente.
Como a Wicca nunca mais.
Ruskies?? jamais é muito tempo, mas se depender de mim, não mais.
Wicca foi unica.

Eutanásia R$ 80,00



Eu me sinto privilegiada quando penso na convivência com meus animais.
Tudo bem..Diversidade... tem gente que não gosta de bicho, que prefere bichos longe, na natureza..tem gente que não gosta de limpar "sujeira", que não quer ter trabalho.
Tem gente alérgica, e outros tantos motivos pra não se ter bichos por perto.

Eu vivi muitos anos da minha vida sem bichos.
Quando peguei meus dois gatos, eu sabia que, depois daquele dia, eu jamais ficaria sem animais. Não posso mais me imaginar vivendo sem eles.

Minha gatinha Pretagil foi uma estrelinha preta que passou na minha vida..linda, falante, amorosa e linda, gente... Muito linda. Era de roça mesmo. Caçava tudo... comia todos.

Quando saiu pelo mato aos 8 meses eu bem sabia: aii meu deus, pensei, bobeei... Pretagil vai voltar barriguda..e dito e feito..voltou com 4 bebes na barriga, que quando nasceram, ela fez questão de me levar no dia seguinte ao nascimento, para a caixinha de cordas lá em cima na garagem... e lá estavam eles. Nasceram no final do ano.

Quando ela tirou eles de lá fez questão de apresentar um a um para os cães da casa, Melão e Neco. Veio como nos filmes, com um bebe na boca, colocando no chão e rosnando pros amigos caninos, indicando que aquele bebe era dela e que não podia morder. Eles entenderam. Aliás, verdade seja dita, eles tinham o maior respeito pela Preta. Ela é que dava as ordens no barraco.

Um dia subiu a montanha com um preá enorme na boca. Levou ate a varanda, onde as "crianças" estavam. Ela levou o bichinho vivo, e ensinou a matar. E os 4 comeram a preá inteirinha, deixando o intestino.. O resto foi tudo.

Eu digo que sou privilegiada de ver tudo isso.

Quando ela ficou doente, eu sabia que era o fim da Preta. Doeu demais deixar ela lá, pra matar. Nunca mais vou me esquecer disso.
Paguei R$ 80,00 (oitenta reais) pra ela morrer.
Obrigada Preta.
Amei ter voce.
Te amo, viu?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tufão na Roça


"Vivo a enebriante liberdade de escrever sobre o que vivo"..esta frase permeia meu universo interior.. A lí em um blog, perdão por nao lembrar mais onde foi...

Sou uma privilegiada. Num universo de analfabetos, semi-analfabetos, cegos que não veem o mundo ao redor,eu me sinto rainha em terra de cegos.
Sentada de costas para a porta de vidro, eu só ouvi o barulho. Olhei pela porta e vi a chuva chegar, mas levei alguns segundos para descobrir de onde vinha o barulho..um barulho que eu nunca ouvi antes..até agora, escrevendo estas linhas, eu me arrepio com a lembrança daquele som. Talvez seja uma das coisas que eu jamais esquecerei.

Deu tempo de pegar o pote da ração dos gatos, fechar a porta de vidro e sair pela casa, fechando o resto.Mas foi só o que eu consegui fazer.
O vento veio..e com ele a destruição como nunca havia visto.
As cadeiras e redes da varanda se foram pelo ar, junto com arvores e pedaços de galhos enormes..tudo voava ao som daquele barulho louco..e a chuva..pouca agua, mas violenta..louca..a janela quebrou e junto com os vidros, levou os apetrechos da lareira,,molhou quadros, sofá, instrumentos musicais.

E aquele som, maravilhoso, louco, me assustava e encantava...não somos nada..nada..tentei abrir a porta, sair de casa, e não consegui abri-la..achei que havia alguém fazendo força pra ela ficar fechada..era a força do vento, que me impediu de abri-la. Não deu. Não consegui fazer mais nada..parei no meio da sala, achando que restaria pouco pra limpar depois do tufão ter passado.
Deve ter durando poucos minutos.

Mas foram intensos. As arvores estão lá..fiquei pensando nos passaros que, há pouco, eu havia visto voarem com pedras nas patinhas para fazer o ninho aqui na minha porta de entrada..tem um nicho lá, e eles todo ano, nesta época, vem aqui para nidificar...
Agora chove. Coloquei uma lona no lugar da janela quebrada, e estou catando os destroços de arvores e outros itens que voaram pela sala afora.
Minha gata miava grosso..eu tb miaria grosso se pudesse soltar algum som pela boca aberta de medo.
Vivo a inebriante aventura de escrever sobre o que vivo.
Sou uma privilegiada, num mundo de poluição e cinza...eu sobrevivi a um tufão na roça...
o resto..o resto é conversa para depois, no fogão a lenha, já com a casa seca.

e viva a roça, minha gente...

O Planeta Talira


Naqueles dias do acontecimento, eu trabalhava com computadores Era uma empresa pequena, quase caseira, que desenvolvia os primeiros pcs, com um sistema operacional que permitia rede, era um avanço.
Eu trabalhava com o Software da máquina e dava os cursos de operação. Requisitei um ajudante.
Foi ai que o Ronaldo entrou na estória. Era programador e tínhamos muito trabalho. Ficávamos a maior parte de nossas vidas naquele cpd gelado. E ele foi, aos poucos se abrindo. Mostrou-me dezenas de mapas inter-galáticos, feitos por ele, marcando trajetórias de viagens. Livros manuscritos com milhares de páginas, contando a estória de um planeta chamada Talira, de povo pacífico. Foram atacados por planeta belicoso. Estória manjada, mas os descritivos das famílias, dos costumes, das escritas, dos números, alfabeto, brasões, arvores genealógicas, tudo absolutamente detalhado. Uma outra dimensão. Ele trazia cada vez mais coisas ao cpd, amontoando uma riqueza no canto frio, me dando o que pensar. Era tudo muito rico...

E um dia, eu sonhei. Sonhei que me colocavam na frente de uma mesa em forma de lua crescente num rico salão de mármore. Na mesa sentavam 13 homens. Um bem no meio, que lembrava o Galdalf, e seis de cada lado dele, todos anciãos. E o do meio me chamou de um nome estranho (que eu não me lembro) e disse "Fulana...nós somos do 13º Conselho de Anciãos de Talira" e você esta aqui ..." e acordei.

Acordei, escrevi o nome que me chamavam no sonho num papel, junto com o nome do Conselho,
tomei banho e saí correndo pro trabalho. Estava louca pra chegar e contar pro Ronaldo,
embora soubesse que ele só chegava, sempre, depois das 10:00 da manhã...Por isso assustei
quando vi o Ronaldo, de costas pra porta de vidro, já debruçado numa listagem de programa em cobol, procurando por uma vírgula fora do lugar.

E o diálogo a seguir conta bem próximo da realidade o que aconteceu:
"-Ronaldo, tenho uma coisa pra te contar, vc nem vai acreditar!
-Eu sei- disse ele.
-Como assim "eu sei"...pois acaba de acontecer...
-Mas eu já sei."

Virou-se para mim e com os olhos cheios de água ele foi se aproximando de mim e dizendo:
"-Voce sonhou com o 13º Conselho de Anciãos de Talira".
E quando chegou bem perto de mim, ele disse olhando nos meus olhos:
"-Fulana (o mesmo nome do sonho), voce esta se lembrando".

E ai, eu fiquei muitoooooo assustada. Meu coração veio parar na boca, não havia área do meu corpo que não tremesse, e no meio do medo, eu só consegui rasgar o papel onde havia anotado o meu nome ( o que hj me arrependo) e lembro de ter pedido a ele que nunca mais tocasse no assunto.
Nunca mais ouvi falar sobre Talira, sua saga, sua viagem ate o planeta Terra, suas naves mães estacionadas em Io, Saturno. e nossas naves de pouso ainda escondidas debaixo das areias escaldantes do Egito. A riqueza de material foi aos poucos desaparecendo do cpd, até que não tivesse mais nada.

Semanas depois, o Ronaldo desapareceu e nunca mais ouvi falar do Ronaldo.

Bem, é quase nunca mais...Mas uma pena que meu medo me paralisou.
Perdi uma grande oportunidade na minha vida de viajar em outra dimensão.

Aprendi que o medo paralisa a alma...
Como eu li no livro "Duna", "..o medo é a pequena morte da mente..."

E minha mente morreu um pouco naquele dia.
Pena pra mim...